19/08/09

Tomar


Deixámos o medo à porta do templo.
Pedaços de nós pelo caminho.
Não recuámos perante o desconforto do metal afiado contra o peito. Contra tudo e todos.
E sabíamos.
Sabíamos que ia doer.
E doeu.
Doeu como se arrancassem a pele que escondia as nossas mil imperfeições. Doeu como se a rasgassem e atirassem para longe de nós, corpos despidos de almas perdidas.
Ex-corpos de almas novas.
Deixámos o medo à porta de nós.
Deixámo-nos.
E só então percebemos o que sempre fomos. E que faríamos tudo de novo. E que a pior dor é não saber.
Não nos saber.

13/08/09

Penedo Furado


Quantos caminhos deixamos por explorar dentro de nós?
Quantos segredos silenciamos entre dois pontos?
Quantas pontes, quantas pedras, quantos abismos, quantos
Teremos que atravessar para nos conhecermos?

22/04/09

Monsanto

Ao negro

Resiste ao tempo. Resiste à história.
Resiste a quem há muito deixou de resistir.
Resiste à memória.
Resiste a quem tenta tirar tudo o que já não tens só para te transformar no que resta de ti sem ti.
Resiste à vida. Resiste à morte.
Resiste a quem te segura só para te largar e largar sobre ti uma pedra pesada e coroada com as quatro convenientes palavras era tão boa pessoa.
Resiste apenas. Resiste sempre.
Resiste ao que os outros querem que sejas mesmo depois de já teres partido.
Resiste a tudo o que não és tu, antes de partires.

07/04/09

Serra da Estrela

Ao branco

Não penses. Vai.
Vive este dia como se a luz que a manhã trouxe fosse suficiente para iluminar tudo o que ficou para trás. Sem pensar no que ficou para trás.
Não andes. Voa.
Sê um pássaro ou um anjo ou o vento ou qualquer outra coisa que te leve daqui. Para fora de ti.

20/03/09

Óbidos

Castelo

Separamo-nos ao cair como as folhas de uma árvore que aos poucos morre para viver. Levantamo-nos. Deixamos para trás os pedaços de cada um que já não fazem parte de nós. Recomeçamos. Como os caminhos cansados e gastos pelo tempo em que ainda não existíamos. Reencontramo-nos. Como os estilhaços de duas almas que novamente se unem no vazio em que caíram.

20/02/09

Bruxelas

Parques de Tervuren
Fantasiámos folhas na floresta em Fevereiro. Fotografámos o futuro. Fingimos falar flamengo. Fomos fadas e fantasmas. Ficções. Fascinados com fragmentos de fábulas. Felizes. Fantoches com a forma do fogo. Feitiços com a fúria do frio. Fizemos falta. Folhas em farrapos. Frágeis. Fim.

20/01/09

Paris

Centre Pompidou
Afastamo-nos dos detalhes para amarmos o nosso todo. Fugimos dos contornos que nos limitam. Absorvemos as cores de outras histórias para dar novos tons à nossa. Também nós somos brilho e cor e sombra nos olhares que ainda esperamos. Também nós somos forma e contraste e instantes nos fragmentos de outras histórias.


Notre Dame

387 passos lado a lado. Não importa quantos faltam nem quantos já deixámos para trás.
Pouco importa o nosso ritmo. A nossa vertigem. A nossa vontade. Às vezes tudo o que precisamos de saber é que precisamos de continuar. Mesmo sem saber.

Torre Eiffel

Subimos dois a dois na esperança de nos tornarmos um.
Subimos para gritar o nosso amor lá do alto e espalhá-lo um pouco por toda a cidade como a chuva dos últimos dias. Subimos e descemos um só, maior do que aquilo que os nossos olhos alcançam. Maior do que a nossa subida. Maior do que tudo o que nos levou a subir.

23/09/08

Sicília

Baía de Brucoli
Le mystère est de plus en plus près de nous.


Etna

Fogo e cinza. Vida e morte. Agora entendo: o vazio deixa de o ser a partir do momento em que alguém o percorre. Entendo: o mais difícil não é andar entre a multidão, mas no abismo dentro de nós.


Villa Romana del Casale

Passamos mais depressa que o tempo sem dar tempo para que as memórias se construam. Passamos mais depressa que o tempo que as memórias levam a gastar-se. Depressa. Sem nos lembrarmos que houve um tempo em que o tempo esperou por nós. Mais depressa. Sem nos lembrarmos que o que somos é quase sempre o que fica depois de já termos passado.